Ama Yawson: “Por que às vezes eu sou contra o namoro interracial”

Journalism and social relations and policy senior Kayla Roney and psychology senior Kris Amos have been together since they met in Aug. 2010. Roney and Amos are amongst a growing number of interracial couples across the country. Matt Radick/The State News
Journalism and social relations and policy senior Kayla Roney and psychology senior Kris Amos have been together since they met in Aug. 2010. Roney and Amos are amongst a growing number of interracial couples across the country. Matt Radick/The State News

Ama Yawson: “Por que às vezes eu sou contra o namoro interracial”

Que pessoa imbecil preconceituosa poderia ser contra um namoro interracial? Encontrar alguém que vai te amar apesar dos seus “defeitos” físicos, idiossincrasias e feridas emocionais é bastante difícil sem impor limitações baseadas em categorias raciais arbitrárias! Eu pensava desta forma até o mais recente dia de Ação de Graças.

O momento especial do ano havia chegado e eu decidi ser a anfitriã. Eu estava tão ocupada arrumando e preparando a mesa, orientando os convidados e cuidando dos meus dois garotos pequenos, que mal escutei as conversas durante o jantar. Mas, no dia seguinte, um convidado me ligou para comentar sobre as opiniões de meu sobrinho adolescente em relação a namoro. Eu fiquei apavorada.

Aparentemente, Richard, meu sobrinho, tinha dito que não havia nenhuma garota negra atraente na sua faculdade, onde estudam centenas de garotas negras. Em seguida, um colega dele acrescentou que as únicas garotas que Richard achava atraentes tinham longos cabelos loiros e olhos azuis. Meu sobrinho, que é negro, não desmentiu. Naquele instante, eu não tinha ficado chocada com as preferências dele porque eu também nunca tinha conhecido uma garota negra com longos cabelos loiros e olhos azuis. Na mesma noite, Richard riu bastante quando ele contou a piada de mulheres negras que morreram no Titanic porque elas se recusaram a entrar nos botes salva-vidas. Elas estavam gritando: “Eu não vou entrar nesse bote! Eu não quero molhar meu mega hair!” (com a voz de Shanaynay*). Como se tudo não pudesse piorar, quando um dos convidados, careca e de pele escura, surgiu com um questionamento sobre seus antecedentes étnicos, já que ele poderia se passar tanto por um africano como por um asiático, Richard simplesmente respondeu que o homem era um “negro de merda”.

A conversa ao telefone sobre o comportamento de Richard criou uma imagem terrível do meu belo, brilhante e talentoso sobrinho que amo profundamente. A imagem de um garoto negro da nossa família e linhagem que não me amaria, ou que não veria beleza em mim, porque eu sou uma mulher negra. Não é difícil encontrar vídeos de homens negros depreciando as características físicas de mulheres negras. Esses homens promovem um padrão de beleza que biologicamente nada tem a ver com mulheres de cabelos negros, crespos ou cacheados a não ser por nossas tentativas de nos aproximarmos desse padrão usando longos mega-hair e perucas. Porém, eu nunca imaginei que tal discurso de ódio poderia estar presente em minha própria casa, numa mesa comprada e decorada por mulheres negras e cheia de comida amorosamente preparada e servida por mulheres negras. Se tal loucura poderia contaminar meu sobrinho, então os outros garotos negros que eu amava não estavam seguros da doutrinação da supremacia branca.

Naquela noite não consegui dormir. Fiquei acordada na cama cercada pela masculinidade negra. Meu filho de três anos estava chupando o dedo de uma mão e passando a outra nas tranças de minha irmã. Meu outro de filho de pouco mais de um ano estava sendo amamentado enquanto dormia. Toquei os pés de meu marido com meus pés. Com tristeza, ecoavam em minha mente as palavras de Kola Boof, a controversa romancista egípcia e sudanesa-americana, durante sua discussão no Twitter com o rapper nigeriano-americano Wale: “Nosso inimigo voltou a ser nós mesmos, filhos que odeiam a si mesmos porque querem escapar do seu próprio povo”. Por favor, não deixem que as palavras dela sejam verdade, eu pensei.

No manhã seguinte, liguei para a mãe de Richard. Eu disse a ela que estava muito incomodada com certos comentários que ele tinha feito. Ela não precisou ouvir muito mais. “É preciso uma aldeia inteira [para educar uma criança]”, ela disse, e passou o telefone a Richard. Eu disse a ele que não me importava dele achar mulheres loiras atraentes, mas que eu estava muito preocupada com o fato dele não achar o mesmo de mulheres negras. Ele se mostrou cheio de bravatas e defensivas adolescentes. Quando o confrontei perguntando se não havia nenhuma garota negra atraente onde ele estudava, ele respondeu que não tinha dito que não havia meninas negras bonitas, mas que ele não tinha visto nenhuma em um ano e meio de faculdade. Sua observação me fez pedir que ele olhasse mais perto. Eu disse que a mãe e a irmã dele eram lindas (elas se parecem a modelo Oluchi Onweagba) e que se ele procurasse a beleza delas, que não é rara na Diáspora Africana, nas mulheres da sua faculdade.

Depois eu disse que a piada tinha sido inapropriada, principalmente porque oito das onze mulheres negras à mesa não tinham cabelos naturais. Cabelo é um acessório utilizado por mulheres de múltiplas etnias. Richard rebateu dizendo que a piada tinha sido contada ao meu primo, que era casado com uma mulher branca, e que ele não tinha dito nada. Portanto a piada devia ter sido boa. Eu disse que era um desafio e tanto falar em tais situações e que o silêncio do meu primo não significou necessariamente aprovação.

Quando pedi a ele que se contivesse no uso da expressão “negro de merda”, Richard disse que ele não queria dizer naquele sentido. Respondi que ainda assim era algo muito ofensivo. Eu disse que eu o amava e lembrei que ele era o garoto mais bonito durante a infância. Embora eu tivesse 14 anos quando ele nasceu, enquanto eu cuidava dele as pessoas às vezes perguntavam se eu era sua mãe. “Sim, eu sou”, eu respondia. O orgulho de ser confundida como a mãe de um bebê tão adorável superava o estigma da gravidez na adolescência. Contei a ele também que considerava um elogio quando as pessoas diziam que meus filhos se pareciam com ele e que ele pelo menos devia estar aberto à possibilidade de se casar com uma mulher negra para ter um filho que tivesse o mesmo tom de sua pele e textura do seu cabelo. Ver beleza numa mulher negra é ver beleza em si mesmo. Mas se ele se apaixonasse por uma mulher não negra, tudo bem. Eu o apoiaria completamente! Mas que esta relação deveria ser baseada num amor verdadeiro e não na falta de autoestima de suas próprias características físicas como se refletidas nas mulheres negras.

Eu sabia que ele tinha sido chamado de terríveis nomes racistas por pessoas brancas no seu bairro e eu disse a ele que sua beleza e humanidade eram evidentes, mesmo que certas pessoas e imagens da mídia negassem isso. Por último, eu disse a ele que sua atual perspectiva é um tipo de maldição sobre sua irmã adolescente que brevemente estaria envolvida no mundo da sedução e do flerte. Richard não pareceu balançado com minha fala. Ele ainda é um adolescente que, assim como os outros adolescentes, está se descobrindo. Mas estou confiante de que, em algum momento, ele vá entender minhas palavras.

Por favor, não me entendam mal. Eu realmente acredito que todos nós somos seres espirituais que estão vivenciando experiências humanas. Como estes seres, devemos encontrar amor e companheirismo nos outros independente de raça, origens etc. Eu realmente me importo com minha cunhada branca. Inclusive eu tive um site de encontros que encorajava mulheres negras a se permitirem relacionar com homens de todas as etnias. Os blogueiros de outros sites de encontros interraciais [ BeyondBlackandWhite.com ] e [ SwirlingandMarriage.com ] são meus amigos e colegas.

Ah, pro inferno! Eu sou uma defensora dos relacionamentos interraciais! Mas isso não quer dizer que eu apoie o racismo. O racismo não se manifesta apenas quando as pessoas brancas de convicções perversas também são selecionadas pelo mercado de trabalho em detrimento de candidatos negros sem antecedentes criminais. O racismo não está presente apenas no preconceito de policiais que assassinam e brutalizam cidadãos negros desarmados como Michael Brown, John Crawford, Sean Bell, Amadou Diallo, Abner Louima and Marlene Pinnock. O racismo pode ser internalizado. Ele pode estar presente nos corações e mentes de pessoas negras e isso impacta no modo como valorizamos a nós mesmos e o outro. A falta de estima pela negritude e o desejo de escapar dela por meio de casamento interracial, ilustrada no famoso quadro A Redenção de Cam**, são alguns dos efeitos prolongados da escravatura, colonização e dominação branca sobre os povos descendentes da África. Por isso tenho sérios problemas com a autorepulsa de base racista que às vezes alimenta os relacionamentos interraciais.

Por exemplo, um homem afroamericano amigo meu do ensino médio uma vez disse que ele adoraria que seus filhos nascessem com “cabelo pixaim” como o dele. Tempos depois ele se casou com uma mexicana. Também existe uma médica da comunidade ganense-americana que tem vários filhos de aparência branca cujos pais são desconhecidos. O que se fala é que ela teria feito sexo com vários homens brancos em pontos de paradas de caminhão apenas para ter filhos de pele mais clara. Além disso, há denúncias de que um ganense, Augustine Boateng, estaria oferecendo um serviço que permite a mulheres e casais em Gana comprar sêmen estrangeiro com o único propósito de gerarem crianças etnicamente misturadas, sem se darem ao trabalho de conhecer ou se relacionar com pessoas de outras etnias. Eu espero que esse pensamento doentio seja raro, mas é certo que ele existe.

Com nossas peles de tons diferentes e nossas diversas texturas de cabelo, somos todos resultado do trabalho de Deus. No meu livro infantil Sunne’s Gift: How Sunne Overcame Bullying to Reclaim God’s Gift (ainda inédito no Brasil) destaco a beleza, a necessidade e o poder de nossa diversidade. Todos os nossos relacionamentos devem ser alimentados pelo amor e não pelas cores da autorejeição de alguns.

Sunne's Gift was written by Ama Karikari.
Sunne’s Gift was written by Ama Karikari.

Tradução: Tom Correia

Notas do tradutor:

* Blogueira norte-americana que se considera negra, mas veicula vídeos de teor racista.

**Obra do pintor espanhol Modesto Brocos (1852-1936), que faz parte do acervo do Museu de Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

 

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